terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Varnasrama Dharma



Para os seguidores dos Vedas, o avanço humano significava avançar rumo à compreensão espiritual, e uma sociedade com objetivos espirituais era designada de Sociedade Isavasya, ou centralizada em Deus.

Segundo sua visão não compete ao homem, à comunidade ou ao estado assumir a posse sob alguma coisa no universo sem antes seguir as regulações naturais decretadas pela providencia suprema. A idéia básica está descrita no Sri Isopanisad: “O Senhor controla e possui todas as coisas aniamadas ou inanimadas do universo. Devemos, portanto, aceitar apenas as coisas que nos são necessárias, reservadas como nossa cota, e não devemos aceitar nenhuma outra coisa, sabendo muito bem a quem pertence.”

O Sri Isopanisad explica que a natureza designou para cada espécie uma partilha bastante ampla tanto para a sobrevivência como para a paz e felicidade. Porém, o ser humano tem a propensão inigualável de querer desfrutar e possuir as coisas que estão além do que lhe foi naturalmente reservado. Embora a prescrição védica confirme que mediante o arranjo divino todo mundo receberá suas necessidades, e que não haverá escassez, contanto que a humanidade viva em sua condição sã e natural.



A instituição social védica, conhecida como varnasrama-dharma, organiza a sociedade em quatro varnas ou divisões sociais e quatro ashramas ou ordens espirituais conforme as qualidades e trabalho das diferentes pessoas.

A literatura védica confirma que o varnasrama-dharma existe desde tempos imemoriais. Ele foi instituído pelo próprio Sri Krishna, com o fim de satisfazer todas as necessidades materiais e espirituais dos seres vivos. Assim, o mesmo Krishna declara no Bhagavad-gita: “De acordo com os três modos da natureza material e o trabalho atribuído a eles, as quatro divisões da sociedade humana foram criadas por Mim.”



Os quatro varnas (divisões sociais) incluem:

Os brahmanas, professores, sacerdotes ou conselheiros espirituais. Entre as qualidades brahmínicas, as escrituras mencionam o controle da mente e dos sentidos, a religiosidade, tolerância, simplicidade, limpeza, conhecimento, veracidade, devoção e fé na sabedoria védica. Eles se encarregavam de velar pelos princípios religiosos da sociedade, dar conselhos, realizar cerimônias védicas, etc.

Os ksatriyas, administradores, militares e guerreiros. As qualidades dos ksatriyas são o heroísmo, poder, determinação, recursos, coragem na batalha, generosidade e liderança. Os ksatriyas protegiam a sociedade, e governavam velando por seus súditos. Seu dever era lutar por uma causa justa.

 Os vaisyas, agricultores e comerciantes. Eles provêem as necessidades vitais da sociedade, são responsáveis pelo manejo de dinheiro, o comercio e, sobretudo protegem às vacas, consideradas uma das mães do homem, e muito relacionadas com os passatempos de Krishna. Segundo os padrões védicos, matar vacas é uma barbaridade. Assim como o ksatriya protege os seus súditos humanos, os vaisyas protegem as vacas. Eles eram basicamente agricultores que cultivam cereais e legumes nas fazendas e cuidam o gado. Para os vaisyas, não era o dinheiro que significava riqueza; esta era representada pelas vacas, cereais, manteiga e leite. Segundo a concepção védica pode-se viver feliz com um pouco de terra onde se produzam cereais e que sirva de pasto para as vacas. Dessa forma o problema econômico era resolvido.



 Os sudras, obreiros e artesãos. Eles assistem com seu trabalho às outras três classes. Sudras eram homens sem inclinações para a vida intelectual, militar ou mercantil, portanto prestavam seu serviço como operários, seguindo sua natureza.

Na concepção védica, o corpo social é análogo ao corpo humano, ou ao corpo do Supremo. Por conseguinte, os brahmanas são a cabeça, os ksatriyas, os braços, os vaisyas, a cintura e os sudras, as pernas. No corpo social, como em qualquer outro corpo, todas as partes são importantes, e ninguém negligencia nenhuma parte; contudo, o cérebro é especialmente importante, pois ele transmite informações para as outras partes.



É importante destacar que estes varnas não são facções políticas ou sociais; eles são categorias naturais encontradas em toda civilização humana. Elas são criadas em base as qualificações dos indivíduos e ajudam a manter um funcionamento regulado na vida de cada membro e também na harmonia de tudo o corpo social rumo ao progresso espiritual. De fato, a sociedade torna-se exitosa apenas quando estas ordens naturais cooperam para a realização espiritual. Considera-se a instituição varnasrama como um instrumento material ideal pelo qual a humanidade pode elevar-se até a plataforma transcendental. Se todos, através de seus serviços ocupacionais, satisfizessem a Deus, haveria paz e prosperidade na sociedade, e o indivíduo poderia enfim alcançar a liberação.

Embora atualmente o sistema tem-se deteriorado na Índia em castas hereditárias, alegando que pelo simples nascimento, são brahmanas e ksatriyas, sem possuir as qualidades correspondentes para isto, sua forma original foi vigente em épocas passadas, e existem muitas historias que relatam a existência de reis piedosos que governaram de uma forma ideal durante milhares de anos.

No Bhagavad-gita Krishna declara especificamente que Ele criou as quatro ordens segundo as guna e o karma, ou seja, segundo a qualidade da natureza material e o trabalho correspondente de cada pessoa, e não de acordo com o nascimento.



Além dos quatro varnas, há os quatro asramas, ordens ou etapas da vida espiritual. Estas são:

Brahmacarya, vida de estudante celibatário. Esta é a primeira etapa da vida espiritual, que começa na tenra infância, quando as crianças vão se treinar sob a tutela do mestre espiritual. É um período de celibato, onde se estudam as escrituras sagradas e se seguem os princípios espirituais de forma intensa e disciplinada, sob a instrução do guru. O treinamento do brahmacari forma o caráter da pessoa para o resto da vida. Durante esses anos iniciais, o mestre espiritual conhece as tendências do estudante e determina o varna para o qual ele está mais bem qualificado. Ao atingir a idade madura, mais o menos vinte e cinco anos, o estudante poderá deixar a vida de brahmacari e a proteção do mestre espiritual a fim de casar-se e aceitar a vida em família. A idéia é que, tendo-se submetido ao treinamento de brahmacari, a pessoa não caia vítima do impulso sexual que é o desejo que mais prende à existência material, e assim possa construir uma família com um objetivo superior, de transcendência. Em essência o sistema varnasrama proporciona um padrão de vida no qual podemos satisfazer nossos desejos e no qual também, através da regulação, podemos pouco a pouco nos livrar do cativeiro material.

Grihastha, vida de casado. Segunda etapa da vida espiritual. Período que corresponde à vida familiar e social, conforme o indicam as escrituras. Nesta etapa a pessoa tem certa licença para o prazer sensorial não permitido nos outros três asramas. Mas tudo é regulado de modo que ele possa satisfazer seus desejos e, todavia, tornar-se espiritualmente purificado. Num casamento grihastha, o sexo é permitido para a reprodução de bons filhos, que serão educados em consciência de Deus. Inclusive antes da concepção, o casal realiza uma cerimônia védica para purificar a consciência. Portanto a purificação da existência da criança inicia-se no momento da concepção no ventre da mãe. Os grihasthas também cuidam do bem-estar de todos os membros da sociedade, vivendo uma vida exemplar, dedicada a espiritualidade junto a sua família.

Vanaprastha, vida retirada. A terceira etapa da vida espiritual. Na idade de cinqüenta anos, logo que os filhos já estão maiores e autônomos, aconselha-se ao casal livrar-se de todo vínculo familiar a fim de preparar-se para a vida de renúncia. Esta é uma fase intermediaria entre a vida de grihastha e a renuncia completa. No vanaprastha-asrama, o marido e a esposa interrompem as relações sexuais, e idealmente eles viajam juntos para os lugares sagrados de peregrinação, para absorver-se no cultivo da espiritualidade e assim desapegar-se gradualmente de seu lar, família e atividades comerciais. Finalmente, o homem rompe com todas as ligações familiares e aceita sannyasa, a ordem renunciada.

 Sannyasa, vida de renúncia. Esta é a quarta e ultima etapa da vida espiritual. Consiste na renuncia total à vida familiar e social, com o objetivo de dominar à perfeição os sentidos e a mente e dedicar-se por completo ao serviço à Krishna. Ele abandona o lar e a família para dedicar o resto de sua vida a ajudar a todo o mundo viajando e pregando a mensagem transcendental. O sannyasi é considerado o mestre espiritual de todos os varnas e asramas, e quem segue os preceitos védicos tem o dever de mostrar-lhe respeito, por ser a personificação da renúncia.



Levando em consideração as várias posições das pessoas nos modos da natureza material, o varnsrama-dharma proporciona um arranjo científico para que todos se elevem. Rendição ao Bhagavan Supremo é a meta final da cultura védica, e esta rendição é a conclusão que rege a literatura e a tradição védica.

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